sábado, 13 de novembro de 2010

Pode uma sonoridade funcionar como uma droga?

do Público

Escolher ficheiro, pôr auscultadores, accionar. Ouve-se um som diferente em cada lado. Aqueles ruídos comercializam-se na Internet como e-drugs - drogas digitais. Têm nomes sugestivos: Orgasm, Peyote, Marijuana, Cocaine, Opium... Há quem lhes atribua sensações de relaxamento, euforia, transe. Mas pode o som estimular o cérebro ao ponto de causar um efeito semelhante ao de drogas como a cannabis, o ópio, a cocaína ou o LSD?

Abundam descrições em sites da especialidade, como o i-doser. Nome de código "Sweet Lemon" escreveu: "Rebenta com a minha cabeça, não a expande apenas. Acabei agora de experimentar o Peyote e foi esquisito. Finalmente, parei de pensar no que ia acontecer enquanto ouvia [aquela música] e bum. Bateu. Reparei como a linha onde a parede e o tecto se tocam era engraçada. Parei de focar e vi sangue roxo a escorrer pelo canto da minha visão periférica. Olhei para trás e desapareceu e vi a outra parede tornar-se roxa e, depois, as luzes tinham chamas roxas a atravessar o tecto. Vinte minutos de loucura. Experimenta!"

No mesmo fórum sobre os eventuais efeitos das e-drugs, estusiásticas opiniões como aquela convivem com opiniões reticentes ou cépticas. Como esta, nome de código "Kurwik": "Experimentei o Peyote três vezes e nada aconteceu. Senti apenas um pouco de medo. Fora disso, nada. Total perda de dinheiro. Vou tentar algum Ecstasy e Excite. Se não funcionar, adeus, caixote do lixo."
A moda está a apanhar adolescentes em muitos pontos do planeta, à boleia das redes sociais. Encontrámos Nick Ashton, fundador do i-doser, numa delas - no Facebook. Pore-mail, em respostas muitíssimo curtas, o jovem norte-americano assegurou que, desde que foi activada, em 2005, a página foi visitada "por milhões". "A nossa aplicação foi descarregada 1,5 milhões de vezes."
Rituais de iniciação
O fenómeno é novo, mas o princípio não é, adverte Maria do Carmo Carvalho, autora deCulturas Juvenis e Novos Usos de Drogas em Meio Festivo (Campo das Letras, 2007): "Sonoridades em frequências muito baixas, durante um longo período, com cadências muito repetitivas, são usadas ancestralmente para induzir estados alterados de consciência."
A investigadora da Universidade Católica Portuguesa fala em "tribos africanas, que produzem modos de realização da cura associados à espiritualidade". Cita um artigo de Uwe Maas e Suster Strubelt sobre o uso de música nos rituais de iniciação no Gabão: "A música é usada por culturas tradicionais em todo o mundo para criar e acompanhar estados de transe". Analisaram as composições e a sua funcionalidade e escreveram: "Supomos que a música potencia o efeito da droga ibogaína que é usada durante o ritual de iniciação".
Não é preciso ir a África. Basta pensar no transe em que entram alguns crentes durante cerimónias de certas seitas. Sem drogas. "Esses estados de transe acontecem com pessoas que estão predispostas a isso e que têm uma certa susceptibilidade", explica o neurologista João Massano.
"Sweet Lemon" pode estar a dizer a verdade e "Kurwik" pode estar a dizer a verdade também? "Há pessoas que têm uma capacidade invulgar de ouvir determinados sons ou de ver determinadas cores ou formas", torna o investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. "Chamam-se sinestesias. Mas são alucinações muito simples, nada comparáveis às provocadas por drogas químicas."
O neurologista traz à conversa o efeito placebo. O método é muito usado na investigação científica: para se distinguir os efeitos de um fármaco da cura por sugestão, um grupo toma um princípio activo, outro um placebo. "Às vezes, há melhores resultados no grupo do placebo."
Pedimos a um músico para experimentar. Deitado, no escuro, com auscultadores, experimentou o simulador de óxido nitroso. Nada. Experimentou um simulador de "substâncias que se encontram na pele de algumas espécies de sapos". Apesar de mais relaxado, tornou a nada sentir. "Tinha uma série de pensamentos a correr pela cabeça, mas, ao fim e ao cabo, não era muito diferente de quando estou prestes a adormecer." Não desistiu. Experimentou um simulador de LSD. Nada. Experimentou um relaxante. "Era extremamente irritante." Desistiu.
"Não fiz a experiência desconfiado. Estava mesmo com esperança que funcionasse, apesar de duvidar muito de algumas das descrições dos produtos", comenta. Faz uma ressalva. Lembra que só usou downloads ilegais. "Sabe-se lá se este material está corrompido."
"Para alguém sentir os efeitos de uma droga, tem de haver quem lhe explique. Senão, a pessoa que está a experimentar não sabe ler o que está a sentir", sublinha Maria do Carmo Carvalho. E os vendedores de e-drugs sabem-no. Uma curta busca ao YouTube conduz a múltiplos vídeos, algumas com centenas de milhares de pageviews. Há os que ensinam a usar; os que mostram miúdos, de auscultadores, a "consumir"; por baixo, o inevitável debate.

3 comentários:

  1. Fumo um baseadão e ouço um Bob Marley. Meu I-Doser diário.

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  2. se fosse de graça... até experimentava, mas como tem que pagar, prefiro meu baseado mesmo!

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